28.10.09

Poker, uma Metáfora da Vida

Não sei se algum teólogo de jogos já reparou nisto, mas é uma coisa que me apercebi desde o momento em que entrei para o mundo do poker e que até agora não me sentia com capacidade de falar acerca dela. O poker é sem sombra de dúvida, uma metáfora da vida. Jogar poker é como por momentos reencarnar uma segunda vez, e tentar sobreviver o maior tempo possível. Exagero?
Vamos por partes. A vida é feita de decisões, certo? Assim como o poker. Mas as semelhanças não param por aqui. No poker temos os bluffers; na vida temos os aldrabões. Como sempre, existem os bons bluffers e os maus; assim como na vida existem aldrabões que se safam e outros que são fechados na prisão mais próxima. Num jogo de poker existem pessoas que estudam e, por isso, tentam sempre jogadas perfeitas de modo a que o seu rendimento seja positivo; por outro lado, existem pessoas que acham que sabem jogar e culpam o azar do seu mau rendimento. Assim como na vida existem pessoas que sabem tomar boas decisões no seu quotidiano, e que por isso chegam mais longe. Estudam, são aplicadas e inteligentes. Na outra face da medalha, existem aqueles que levam a vida com demasiado facilitismo, e culpam os outros ou o azar de não conseguirem chegar tão longe como aqueles que estudaram e tomaram boas decisões. Mas é aqui que entra o factor mais semelhante entre a vida e o poker: o factor sorte. Ou seja, e remetendo para o caso da vida real, é possível alguém estudar e tomar boas decisões mas ter o azar de as coisas lhe correrem mal. O que equivale num jogo de poker a fazer uma leitura soberba do nosso adversário, dar call ao seu shove com JJ e ele mostrar 2-3 de espadas, e bater no flop sequência ou flush. Eu acho isto espectacularmente interessante.
E destes podemos retirar inúmeros casos que são uma metáfora do que existe na vida real. Como por exemplo, as stakes. Num jogo de poker, cada jogador escolhe a stake mais apropriada para si. Existem jogadores que se sentem bem em tomar muitos riscos, e existem jogadores mais cautelosos. Assim como na vida, existe quem arrisque muito ou pouco. Será benéfico? Isso dependerá da decisão em questão. E tanto na vida como no poker, tudo gira á volta das decisões. E no fim de tudo, a longo prazo, o que realmente irá importar será quem tomou o maior número de boas decisões.

Portanto, o poker poderá ser visto como um jogo dinâmico e social que faz uma caricatura da nossa vida quotidiana. É por isso que não existirá nenhum jogo que seja mais completo e exigente do que este.

André Leitão

NOTA EDITORIAL:
Peço desculpa a todos os leitores pelo tempo sem posts. Acontece que a faculdade pede muito, e o fato de treino estará sempre à frente do blog. No entanto, prometo que irei postar mais vezes, e com mais frequência. Não deixem de visitar este vosso espaço, que como muitos já dizem ser o blog de poker mais completo de Portugal.

12.10.09

A História do Poker

Quando começa a história do poker? Depende... depende de quão estreitas e directas são as ligações. Consideremos um jogo que possa descrever-se assim: "Os jogadores recebem algumas cartas e depois competem para aumentar o próprio crédito (stake); vence quem possuir a melhor combinação de cartas ou quem os adversários suponham ter a melhor combinação de cartas."

Não se trata certamente, de uma relação directa mas, tendo-se horizontes largos, pode pensar-se com razoabilidade nalgum débil e longínquo laço familiar. Ou pelo menos assim o considera David G. Schwartz, no seu cuidadoso Roll the Bones: The History of Gambling (2006).

O jogo acima descrito teve origem em Itália no século XV e chama-se Primiera. Em Inglaterra chamava-se Primero, era praticado por Henrique VIII e Isabel I e foi citado por Shakespeare. Porém, atenção, tal como admite o próprio Schwartz, até ao momento são apenas vagas afinidades conceptuais, não havendo nenhuma relação directa. Um percurso plausível passa pelas numerosas variantes que a Primiera teve ao longo dos séculos em França (Bouillotte, Poque), na Alemanha (Poch), em Espanha (Mus) e na Pérsia (As Nas).

Entre estas, o alemão Poch (ou Pochen), um jogo que consistia em 3 fases diferentes, numa das quais os jogadores apostavam sobe quem pudesse ter a melhor combinação de cartas. Em França, o Poch foi chamado Poque e partiu daí, no final do século XVIII, para atravessar o atlântico e atingir à colónia francesa da Luisiana. O Poque joga-se com 20 cartas (A-K-Q-J-10); 4 jogadores recebem 5 cartas cada um, há um único lance de apostas e não se descarta nem se retiram cartas novas. As combinações admitidas são apenas pares, dois pares, trios, full e poker; de notar que deste modo existem 2 combinações imbatíveis, não só o poker de A (a combinação mais forte em absoluto), mas também o poker de K, se a quinta carta fôr um A.
Ou seja, assim à primeira vista, este Poque não me parece de facto mal, pelo que talvez valha apenas delinear algum cálculo de probabilidade e experimentar jogar.
A passagem de Poque para Poker deveu-se à pronúncia americana do nome françês e ocorreu, presumivelmente, entre 1810 e 1825, sem que ninguém pudesse imaginar quantas vezes aquela palavra viria a ser pronunciada nos séculos que haveriam de vir.
Naqueles tempos, Luisiana era terrano fértil para um jogo como o Poker; Thomas Jefferson tinha acabado de comprar uma antiga colónia a Napoleão e preparava-se para a incorporar nos Estados Unidos da América; Nova Orleães (ou Nouvelle Orleans, como os franceses continuam a chamá-la) vivia uma espécie de sucesso comercial e o jogo prosperava a tal ponto que eram criadas numerosas casas de jogo, às vezes até legais. Por outras palavras, Nova Orleães estava a tornar-se a capital do jogo dos EUA, papel que viria depois a manter durante muitos anos.
Entre 1830 e 1850, as regras tornaram-se mais articuladas: passou-se ao baralho com 52 cartas e entre as combinações foram introduzidas a sequência e o flush.
Os últimos passos em direcção ao poker clássico (Draw Poker), como todos o conhecem, foram dados na segunda metade do século XIX. Primeiro que tudo, com a introdução do draw, isto é, a possibilidade, que dá nome ao jogo, que o jogador tem de descartar algumas das suas cartas e retirar outras tantas, que espera melhores. Outra regra foi o acrescentar dos jackpot: os jogadores não podiam "abrir" na ausência de pelo menos um par de valetes (jacks or better).
Nesta altura, o passo maior já estava dado: o Poker tinha-se tornado o jogo americano por excelência e o seu desenvolvimento já não se deteria mais. Em seguida chegaram todas as variantes do stud (nas quais cada jogador tem um misto de cartas cobertas e descobertas), imortalizadas em filmes como Cincinnati Kid. Nos anos 70, o Stud era, certamente, a forma de Poker mais praticada.

E o Texas Hold'em? Mais uma vez, não existem dados precisos. Tratava-se de um fenómeno evolutivo. Mais ou menos consciente, esta ou aquela regra eram modificadas e as que davam os melhores resultados vingavam neste ou naquele grupo de jogadores. Seja como for, parece que o Texas Hold'em desenvolveu-se na região de Dallas (no Texas, para ser exacto), entre os anos 20 e 30. Depois da 2ª guerra mundial, o jogo começou a difundir-se no Sul dos EUA, mas para a consagração definitiva era preciso esperar pelo ano de 1971, quando o torneio de No Limit Texas Hold'em foi escolhido por Benny Binion como evento principal das World Series of Poker. A partir desse momento, a popularidade deste estilo não parou de crescer: foi definido como - e é ainda assim considerado - o Cadillac do Poker.

Dario de Toffoli

3.10.09

As Leituras Soberbas de Daniel Negreanu

Daniel Negreanu é um canadiano, proveniente de Toronto. Entre os seus grandes feitos no mundo do poker, estão bem salientes os dois títulos World Poker Tour e a premiação de jogador do ano das World Series of Poker de 2004.

O vídeo que aqui vos deixo é impressionante. Decorre nas World Series of Poker, e tem como protagonista - como é óbvio - o próprio Daniel. Aqui ele, seguindo os seus instintos e habilidade de leitura, consegue decifrar as mãos dos seus adversários de uma forma impressionante. Existe até mesmo uma frase do comentador a meio do vídeo, que diz "Será que ele também consegue especificar os naipes?". É de facto impressionante, e apenas uma estrela como Daniel Negreanu seria capaz de protagonizar momentos tão puros de poker. O último adversário, como irão ver, fica bastante incomodado quando completa um improvável flush contra a sequência de Daniel.

1.10.09

Inventar o Poker foi um golpe de génio

"Proporia uma subdivisão em quatro categorias principais, subordinadas a que, nos jogos considerados, predomine a competição, a sorte, a representação e a adrenalina. Chamei-lhes, respectivamente, Agon, Alea, Mimicry e Ilinx. As quatro pertencem, de direito, ao campo dos jogos: joga-se futebol, ao berlinde ou ao xadrez (Agon), joga-se na roleta ou lotaria (Alea), brinca-se aos piratas ou representa-se Nero ou Hamlet (Mimicry), divertimo-nos, jogamos, a provocar em nós, com um movimento acelarado de rotação ou queda, um estado orgânico de perda da consciência ou de desfalecimento (Ilinx).
Roger Caillois, "O Jogo e os Homens" - 1967

É crença comum que o Poker é um jogo de azar, isto é, baseado principalmente na sorte. Nada poderia estar mais errado! O facto de ser jogado, essencialmente, a dinheiro não quer dizer que o Poker seja comparável à Roleta ou às Lotarias. Existe, certamente, uma componente de sorte, mas, com o tempo, o melhor jogador acaba por vencer, tal como acontece no Backgammon ou o Bridge.
Acreditem e não se precipitem, para não serem logo depenados mal assimilem as regras, pois acabariam por amaldiçoarem a má sorte e não vocês próprios. É preciso entrar muito lentamente no mundo do Poker, com humildade, estudar gradualmente o seu funcionamento e, apenas quando nos sentirmos verdadeiramente prontos, arriscar um pouco. O sábio doseamento de habilidade e sorte é o indregiente comum ao Poker ao Backgammon e ao Bridge.
O Poker vai mais além: é o único jogo que reúne em si as quatro "pulsões" do lúdico, individualizadas e magistralmente descritas por Roger Caillois na sua obra Os Jogos e os Homens: Agon (a habilidade, o espirito de competição), Alea (a sorte), Mimicry (a máscara, que no Poker se concretiza principalmente no bluff) e, finalmente, Ilinx (a vertigem, com rios de adrenalina a correr durante as apostas).

Dario De Toffoli

30.9.09

Então quer ser profissional?

Na mesa final da World Series of Poker de 2005, o consenso dos media era o de que apenas existia um profissional na mesa: Mike Matusow. Aprendemos que o campeão Joseph Hachem, desistiu de uma carreira de 13 anos como chiroprático - ciência que se destina a diagnosticar e tratar de problemas relacionados com problemas do músculo esquelético - para ganhar a vida a jogar poker. Os outros 7 da mesa final ganharam um punhado de milhares de dólares. É uma boa aposta dizer que alguns deles agora se consideram profissionais. O que quer isso dizer?

Três Mitos Acerca de Jogar Poker Profissionalmente

Mito #1: Ou sou profissional ou não
Considere os seguintes jogadores. Quais são profissionais e quais são amadores?

Adam

O Adam joga torneios frequentemente. Ganhou milhares num mês, e foi à falência no mês seguinte. Ele está sempre a pedir dinheiro emprestado aos seus colegas jogadores. Não tem uma vida fora do mundo do poker, e pensa constantemente "Quem me dera ter habilidades e experiência que me permitissem ter um emprego normal."

Betty

Durante o dia, a Betty é contabilista ganhando $50K por ano. Ela joga poker no seu tempo livre. Alguns anos ela ganha $20K a jogar poker, outros anos ganha $100K. Raramente tem um ano perdedor.

Debbie

A Debbie tem uma bankroll de $500K, e ganha (ou perde) algo entre os $50K e os $200K por ano jogando num plano muito errático. Esse plano envolve jogos on-line, ao vivo e torneios. Ela viaja para terras distantes sempre que lhe apetece, e tem planos para assentar e criar família. Um dia, mas não agora.

Eddie

O Eddie joga apenas on-line. Ele gere-se pelo relógio, joga exactamente 8 horas por dia, 5 dias por semana, em 4 mesas ao mesmo tempo com limites que não ultrapassam os $5-$10 de Limit Hold'em. Ele ganha uns surpreendentes $100 por hora, leva a família de férias duas vezes por ano, joga ténis, e vai ver ópera aos fins de semana.

Mito #2: Eu estaria muito melhor se pudesse jogar poker a tempo inteiro

VERDADE: É divertido jogar uma hora ou duas por dia.

MAS: Poderá não ser tão divertido jogar todo o tempo excluindo outros interesses, como a família ou os amigos.

VERDADE: É menos stressante e divertido se fôr jogado como um hobby.

MAS: Poderá ser muito stressante chegar ao fim do mês e ainda não ter o dinheiro para pagar as contas.

VERDADE: Aqueles vencedores dos torneios de TV vivem como estrelas de rock.

MAS: E os outros 99% de jogadores que você não vê, e que estão a competir pelo seu sonho?

Mito #3: Não preciso de uma grande bankroll para ser um profissional

Vá ver a lista de antigos campeões do mundo que passaram um ano sem chegar à mesa final de um evento importante. Enquanto isto está a ser escrito, custa cerca de $500K para entrar em eventos importantes num ano.

Pergunte ao seu profissional preferido quantas vezes perderam tudo na sua carreira, ou quantas vezes tiveram de pedir dinheiro emprestado aos seus colegas.

Poker é um grande jogo; tem toneladas de divertimento, e a verdade é que nunca foi tão lucrável como hoje. Mas tente manter-se em perspectiva.

O Poker não tem de consumir a sua vida. Poderá ter uma grande participação no poker, e pode fazê-lo sem desistir de todas as coisas boas que se passam na sua vida.

Financeiramente, mentalmente e socialmente, é muito melhor que encaixe o poker na sua vida do que acontecer o oposto.

Voltando aos exemplos dos jogadores dados no ínicio deste artigo: está claro que o Eddie é profissional. E está igualmente claro (no meu ponto de vista) que o Adam não o é; mesmo que ele pense que seja; assim como toda a gente em geral. Quanto aos outros 3, não sei se os ei de considerar profissionais ou não: mas não me importava de estar no lugar deles.

"Profissional" é apenas uma palavra. Ser um jogador de poker profissional não é a mesma coisa que ser um jogador de poker bem sucedido.

Moral da história: O caro leitor não precisa de ser um profissional de poker para ser um campeão de poker.

Por Rafe Furst

29.9.09

AK - Uma Mão Manhosa

Habitualmente digo às pessoas que os resultados a curto-prazo não são uma razão para alterarem o seu jogo, mas também as encorajo a usar qualquer desculpa para estudar e analisar o seu jogo.

Recentemente, um jogador lamentava-se na Full Tilt Poker por ter ido à falência com AK nos últimos torneios, e suspeitava que estava a fazer algo de errado. Algumas questões revelaram que ele estava a ser eliminado bastante cedo nesses torneios quando enfrentava pares de mão contra o seu AK por todas as suas fichas. É um lamento familiar.

Muitas pessoas apaixonam-se pelo AK em pré-flop no No Limit Texas Hold'em porque sabem que muito raramente estarão pior do que 50-50 para vencer a mão em heads up. Enquanto isto é absoluta verdade, o inverso também o é: raramente estará muito melhor do que 50-50 para ganhar um all-in no showdown.

Porque é então o AK considerado uma grande mão inicial? Por causa da folding equity. Com as condições correctas, o caro leitor poderá aumentar a equity do pot para cerca de 50% conseguindo que os seus adversários dêem fold em situações que não o deviam fazer. Por exemplo: As cegas são de $200-$400 e a Jennifer Harman (que tem $12,000) dá raise para $1,200 de uma posição média com TT. Você faz re-raise all-in de $6,000 no botão com AK. É dificil para a Jen dar call aqui, visto que mesmo que ela suspeite que você tem AK também sabe que a mesma jogada seria feita com AA, KK, QQ ou JJ.

Quererá ela arriscar metade da sua stack no que parece ser, no máximo, favorita em cerca de 57%? O caro leitor, por outro lado, está confiante que, a menos que ela tenha AA ou KK, não estará pior do que 43% para vencer a mão - mesmo que ela dê call. A menos que a Jen apanhe uma tell, ela é forçada a dar fold à mão que é melhor do que o seu AK por uma pequena margem. E como se não bastasse, você conseguiu com que ela entregasse as fichas extra que se encontravam no pot que lhe estavam a dar grandes odds para dar call.

Ao colocar os seus adversários numa situação difícil - onde terão de dar call e depois vencer uma corrida - você poderá transformar uma mão que vale 50% numa mão que é 75% favorita ou melhor.

O grande erro dos jogadores inexperientes é que não dão aos seus adversários uma hipótese de dar fold. Olham para o AK e mal podem esperar para colocar todo o seu dinheiro em jogo e fazer uma corrida. Mas como podemos ver pelo exemplo em cima, o poder do AK em pré-flop está mesmo na fold equity que se ganha ao fazer com que os adversários desistam de mãos que não desistiriam se pudessem ver o AK.

Aqui estão 3 instruções simples para tirar o maior partido do AK em pré-flop:

1) Aposte alto com AK, mas não dê call a um all-in
2) Raise o suficiente para dar oportunidade aos seus adversários de desistirem da mão
3) Não raise muito alto para apenas receber call de mãos que o têm dominado (AA ou KK)

Para executar estas jogadas é importante ter em conta o tamanho das blinds em relação à sua stack e à do seu adversário. O AK perde muito valor quando os seus adversários não têm fichas ou estão comprometidos com o pot. Estes principios aplicam-se quer a jogos ring ou torneios. Voltando ao meu amigo que estava a perder os torneios todos com AK...

Nas fases iniciais de um torneio, as cegas são muito pequenas comparadas á stack de qualquer jogador. Este facto contribuiu para que ele quebrasse as 3 regras essenciais:

(1) Ele estava a dar call a raises all-in adversários quando eles tinham o tão esperado par de mão
(2) Ele apenas apostava alto quando os seus adversários estavam comprometidos com o pot
(3) Depois de ver os seus AK perderem algumas vezes, começou a fazer raises muito elevados para proteger a sua mão - e aconteceu que apenas levava call quando estava dominado.

Esta é uma daquelas situações em que olhar para os resultados a curto-prazo poderá levar a melhorias a longo-prazo.

Rafe Furst

24.9.09

Matemática Fácil

No mundo do poker, ouve-se muitas vezes falar da existência de dois tipos de jogadores: os que jogam por intuição, e os matemáticos. Mas a verdade é que até o jogador mais intuitivo precisa de compreender muito bem os conceitos matemáticos que existem no poker. O caro leitor nunca irá ser um jogador bem sucedido se não compreender estes conceitos. A única coisa que é fulcral entender é o valor esperado (EV), ou ao que algumas pessoas chamam de equity.

O valor esperado ou EV, é a quantidade de dinheiro que o caro leitor ganhará a longo prazo - tendo em conta a sua mão contra um range de mãos possíveis, com todos os cenários possíveis. O EV é muito importante, porque sempre que joga poker o seu objectivo é ganhar a longo prazo. Não tem haver com vencer uma mão específica, mas sim maximizar a quantidade de dinheiro que se irá ganhar a longo prazo. A curto prazo poderá perder uma mão ou duas, pode cair numa sequência de derrotas. Mas se quiser ganhar a longo prazo, terá de fazer jogadas com uma EV positiva sempre que puder - assim irá conseguir chegar lá.

Vamos ver um exemplo de EV no mundo real: suponhamos que custará $1/hora para estacionar o carro no parque do aeroporto, sabendo que os picas apenas aparecem uma vez por dia para cobrar os bilhetes. Se a multa pela infracção de não pagar o bilhete custar $24 ou menos, a melhor jogada nesta situação, é não pagar o bilhete do parque. Se o bilhete custar $20 e apanhar uma multa em média por dia, então irá custar-lhe 83 cêntimos por hora arriscar apanhar uma multa. Como paga $1 por hora, irá ganhar $0,16 cêntimos em EV por não pagar o bilhete do parque. A curto prazo, poderá perder $20 ao apanhar uma multa. Mas se fizer isto vezes sem conta, irá ganhar dinheiro. Irá poupar 16 cêntimos por hora. Agora, 16 cêntimos é uma quantia pequena. Mas no poker, 16% é uma grande vantagem - e se fizer as decisões correctas sempre que tiver esse tipo de vantagem deverá ganhar a longo prazo.

A EV poderá ser dificil de calcular, visto que tem de supôr muitas coisas. Por isso existem maneiras simplificadas de calcular o EV que se podem aplicar em determinadas situações. Vou começar por falar nas Pot Odds (Probabilidades de Pot). As pot odds é um cálculo muito simples. Olha-se para todo o dinheiro que está no pot (incluindo a aposta do seu adversário) e compara-se com o preço que se tem de pagar para continuar na mão. Por exemplo, você tem e na mesa está - o seu adversário aposta $500 criando um pot de $1500. Como vê, está em flush draw - o que lhe dá 9 outs para vencer a mão, o que significa que as probabilidades de vencer o pot são cerca de 4 para 1 contra si. Existem 9 cartas que o ajudam, contra 35 cartas que não o fazem - 35 para 9 significa 4/1. Por isso, você precisará de pot odds melhores do que 4/1 para poder dar call. Então, que pot odds está a ter? O seu adversário apostou $500, criando um pot de $1500. Ou seja, você terá de pagar $500 para ganhar $1500 - o caro leitor apenas têm probabilidades de 3/1 (1500/5=3 ou 500 para 1500=1/3). Não chega: precisará de pot odds superiores a 4/1 para que o seu call seja correcto. Por isso nesta situação, para maximizar a sua EV, deverá desistir do seu flush draw.

Agora vamos ver um exemplo de cálculo de pot odds pré-flop. Está a jogar $100/$200 e tem - por isso faz um standart raise de 3x a grande cega. Um adversário com $2,000 faz all-in. Todos dão fold até si, e agora tem uma decisão a tomar. Irá custar-lhe $1,400 para dar call ao all-in, e o pot total é de $2,900. 2900 para 1400 = 2/1 pot odds, o que significa que precisa de pot odds um pouco melhores do que 2/1 para dar call nesta situação. Isso significa que se a sua mão tiver pelo menos 30% de hipóteses de vencer contra o range de mãos do seu adversário, é correcto dar call. O problema é que o caro leitor não sabe o que o seu adversário tem. Se ele tiver um par de mão maior do que o seu, as suas probabilidades de vencer são inferiores a 20%. Se soubesse que ele tem par de mão, obviamente que deveria desistir. Mas se ele tiver , ô caro leitor será favorito. Terá uma probabilidade de vencer a mão superior a 50%. Em média, contra o range de mãos do seu adversário, é correcto dar call nesta situação. É muito provável que tenha mais do que 30% de hipóteses de vencer. Ou seja, dar call nesta situação é correcto porque os pot odds são maiores do que as probabilidades de você não vencer a mão - o que lhe dá uma equity positiva para dar call.

Ser um jogador matemático, não significa que ignore o seu adversário. Tem de jogar de maneira diferente, contra adversários diferentes. Dependendo do range de mãos que você dá ao seu adversário, poderá jogar de forma diferente e pensar que tem pot odds. Se o seu adversário fôr loose, é provável que a sua mão não seja tão boa - por isso poderá ter pot odds nessa situação. Se ele fôr muito tigh, as suas pot odds diminuem visto que é muito provável que ele tenha a melhor mão naquela situação. Por isso, a matemática do poker ainda é muito específica para cada tipo de jogador, e depende bastante nossa leitura de jogo. Por isso, para ser o melhor jogador possível, terá de incorporar aquilo que sabe do seu adversário com a matemática da situação em particular.

Depois temos as Implied Odds (Probabilidades Implícitas). As Implied Odds são como as Pot Odds, mas você terá de ter em conta o pot que poderá vencer mais tarde. As pot odds assumem que não existem mais apostas, mas na maior parte das situações no poker, existirão mais uma ou duas rondas de apostas - as implied odds levam isso em consideração. Portanto, as implied odds são o tamanho do pot que poderá vencer no futuro se completar a sua mão. Geralmente são maiores do que as pot odds, por isso poderá correr mais riscos e jogar mais mãos do que se apenas contasse com as pot odds.
Quando está a calcular as implied odds tem de olhar para o futuro. Tem de usar uma bola de cristal e prever quanto poderá ganhar se completar a sua mão. Isso irá depender da mão em que coloca o seu adversário, e de como ele irá reagir. É muito importante que tenha em conta se a mesa ficará assustadora se você completar a sua mão. Por exemplo, suponha que estão 3 copas na mesa e você tem o Ás de copas. Se uma quarta copa aparece, é pouco provável que vá ganhar um grande pot. Isto porque é muito óbvio que completou o seu flush. Mas se não houver possibilidade de flush, e você tiver uma straight draw, será difícil para o seu adversário imaginar que você tem realmente a sequência - por isso eles vão pagar muito mais do que quando fôr óbvio que estão batidos.
Também terá de usar a sua memória de mãos antigas. Se está a ver que o seu adversário não larga um top pair, então sabe que será bem pago se completar o seu flush ou straight.

Ser um jogador matemático poderá ser bastante lucrável, e uma prevenção contra jogadas por impulso - visto que provavelmente, a jogada quer a tenhamos perdido ou não, foi feita correctamente.

Por Andy Bloch